Artigo, Pré-embalados

Controlo metrológico: principais dificuldades no setor dos vinhos

O enchimento de vinhos é, provavelmente, o processo de produção de pré-embalados mais comum em Portugal. Devido à natureza do processo de enchimento, no caso particular do enchimento de garrafas, é frequente surgirem algumas dificuldades em garantir o cumprimento dos requisitos legais aplicáveis ao controlo metrológico de pré-embalados no setor dos vinhos, pelo que é muito importante estar consciente das principais variáveis que podem influenciar a quantidade de vinho doseada e como é que estas podem ser controladas.

Características metrológicas

As condições metrológicas impostas no controlo metrológico no setor dos vinhos é exatamente igual à de todos os outros produtos, ou seja, um lote de garrafas de vinho ou de Bag-in-Box ou de qualquer outro tipo de embalagem deve cumprir as 3 Regras do Embalador.

No controlo metrológico nos vinhos, e em particular, no enchimento de garrafas, cumprir os critérios dos conteúdos, ou seja, não exceder os erros admissíveis por defeito (EAD) é bastante fácil, pois a variabilidade normalmente existente nos processos de enchimento, é tão baixa que se torna muito difícil ter garrafas com uma quantidade inferior ao EAD.

A principal dificuldade reside no cumprimento do critério da média, ou seja, garantir que o conteúdo médio efetivo de um determinado lote de garrafas é superior ou igual à quantidade declarada no rótulo da embalagem. E tudo começa com o entendimento de que, de facto o que é necessário é cumprir essa condição. Frequentemente, os embaladores entendem que a quantidade de vinho nas garrafas deve ser maior ou igual à quantidade nominal menos o EAD, o que não é verdade, levando muitas vezes ao aparecimento de lotes não conformes.

Por exemplo, um embalador que tem um lote com um conteúdo médio efetivo de 746 mL, para uma garrafa de 750 mL, pode entender que o mesmo está conforme, pois esse valor é maior ou igual a 735 mL (Quantidade nominal menos o EAD, ou seja, 750 – 15 = 735 mL). Este lote não está conforme, pois a média deverá ser sempre maior ou igual a 750 mL.

Tipo de enchimento e metodologia do controlo

No enchimento de garrafas de vinho, o doseamento é, regra geral, realizado através de nível constante. Isto significa que, independentemente do tipo de enchedora, a quantidade de vinho contida nas garrafas é regulada através do acerto do nível de vinho no gargalo da garrafa, para que todas as garrafas tenham visualmente o mesmo aspeto, fator este que é muito importante do ponto de vista do consumidor.

Porém, mesmo que todas as garrafas tenham exatamente o mesmo nível de vinho, não significa que tenham exatamente a mesma quantidade de vinho. Isto acontece porque o espaço no interior das garrafas poderá diferir ligeiramente entre elas levando à existência de garrafas com níveis de vinho iguais, mas quantidades de vinho diferentes.

Figura 1: Diferentes conteúdos efetivos para o mesmo nível de enchimento.

As garrafas de vinho são consideradas recipientes de medida e, à semelhança do que acontece com os pré-embalados, são sujeitas a controlo metrológico, de acordo com a Portaria nº 15/91 de 9 de janeiro. Isto significa que as garrafas são verificadas para garantirem que o embalador consegue colocar a quantidade de vinho necessária ao cumprimento do pressuposto do regulamento dos pré-embalados.

No entanto, mesmo cumprindo os requisitos legais aplicáveis aos recipientes de medida, as garrafas podem não ter uma capacidade suficiente para permitir ao embalador cumprir o critério da média dos pré-embalados. É muito importante que, sempre que isto aconteça, os embaladores façam chegar estas indicações aos produtores de garrafas para que estes entendam que não é suficiente cumprir os requisitos dos recipientes de medida para que o embalador possa cumprir os requisitos que lhe são impostos no controlo metrológico nos vinhos.

As garrafas recipientes de medida, têm marcado no fundo o nível que as mesmas devem ter. Se uma garrafa tiver uma marcação de 60 mm, significa que para a mesma ter 750 mL de produto, a altura entre o bordo do gargalo e o nível de vinho deve ser de 60 mm. Mas como foi referido, a verificação metrológica às garrafas permite que as mesmas tenham algum erro na sua capacidade e, por isso, é importante que os embaladores realizem medições de capacidade utilizando um instrumento de pesagem e medindo a massa volúmica do vinho a 20 °C de forma a ajustar esse mesmo nível de enchimento.

A determinação do conteúdo efetivo de garrafas de vinho por gravimetria, ou seja, por pesagem numa balança e divisão pela massa volúmica é o método mais prático e eficaz para determinar com rigor o conteúdo efetivo de garrafas de vinho. Já vimos que o nível do enchimento pode dar uma ideia errada da quantidade de vinho na garrafa e no ponto seguinte vamos perceber que a temperatura do enchimento também pode originar algumas perceções erradas sobre a quantidade de vinho nas garrafas.

Temperatura do enchimento nos vinhos

A temperatura do enchimento de vinho vai condicionar o nível de enchimento nas garrafas. Quanto maior for a temperatura de enchimento maior será o volume ocupado pelo vinho na garrafa e por vezes poderá ser mesmo difícil colocar a quantidade desejada nas garrafas. É muito comum os embaladores optarem por embalarem o vinho a quente, a temperaturas que podem ir até aos 48 °C, após a aplicação de processos de estabilização do vinho como a pasteurização. O vinho expande com o aumento de temperatura e os embaladores devem garantir que exista uma câmara de expansão entre o vinho e a rolha, podendo levar a uma maior dificuldade em colocar a quantidade correta nas embalagens.

Se as garrafas não tiverem uma capacidade suficientemente grande para permitir esta variação de volume no enchimento a quente não vai ser possível dosear toda a quantidade de vinho. Nestes casos, a escolha por uma rolha mais curta também poderá ajudar a resolver esta situação, mas é muito importante que o embalador perceba que poderá condicionar o cumprimento dos critérios legais dos pré-embalados ao encher a quente.

Qualquer que seja a temperatura do enchimento, o embalador deve garantir que a 20 °C (temperatura de referência), as garrafas cumprem as 3 Regras do Embalador. Por vezes, os embaladores utilizam métodos volumétricos, como um balão volumétrico, uma proveta ou um fiole, para determinar o conteúdo efetivo das garrafas, mas se a temperatura de enchimento for diferente da temperatura de referência, poderá transmitir uma ideia errada da quantidade real de vinho nas garrafas.

É por isso que o controlo por gravimetria é o mais adequado para controlar este tipo de produtos. Utilizando a massa volúmica a 20 °C nos cálculos apenas é necessário determinar qual a massa de vinho que deverá constar nas embalagens. Como a massa de vinho não varia com a temperatura, apenas será necessário realizar as referidas pesagens, aplicando uma amostragem e frequência adequadas e comparando depois com os valores alvo previamente definidos.

É também importante que estes testes sejam realizados determinando as taras individuais de cada garrafa, pois é muito comum as embalagens de vidro terem uma grande variação entre elas podendo também obter-se uma noção errada do enchimento quando se consideram valores médios para a tara das garrafas.

Conclusões

Encher garrafas de vinho requer o cumprimento de várias condições que nem sempre são fáceis de conciliar, mas é importante começar por entender como controlar e conhecer todas as variáveis que vão determinar os conteúdos efetivos no enchimento.

Quando alguma destas variáveis críticas nos escapa podemos ficar com sensação de que estamos a fazer tudo de forma correta e podemos ser apanhados desprevenidos no incumprimento de algum requisito legal ou normativo aplicáveis ao controlo metrológico no setor dos vinhos.

É possível que nem sempre se consiga respeitar todas condições que temos estabelecidas para o enchimento, mas saber o porquê e como chegar lá pode ajudar-nos bastante a melhorar os processos e a tomar decisões mais adequadas e com menos riscos, quer para o embalador, quer para o consumidor.

Referências

Guia WELMEC 6.12, Edição 1, Fevereiro 2013, Guide on Directive 75/107/EEC Measuring Container Bottles, disponível em WELMEC Guide.

Engarrafamento e Enrolhamento Do Vinho – Enchimento e Tipos De Enchedoras | Clube de Vinhos Portugueses (clubevinhosportugueses.pt), consultado em 17/06/2022.

Autor Rui Silva

Mestre em Eng.ª do Ambiente, Rui Manuel Pedrosa da Silva realiza e coordena, desde 2008, ensaios de verificação metrológica de Pré-embalados. Desde 2012, participa como formador e orador em vários seminários e formações sobre Controlo Metrológico de Pré-embalados. Atualmente desempenha funções de Gestor da Qualidade e Diretor Técnico na empresa Aferymed.

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