Artigo, Atualidade, Indústria 5.0, Opinião

Indústria 5.0: As pessoas no centro da (r)evolução

Hoje, ninguém questiona a implementação do paradigma da Indústria 4.0, porque é uma realidade instituída para as empresas que ambicionam integrar a vanguarda tecnológica e produtiva, pelo menos nas economias dos Países Desenvolvidos. Mas será que, quando uma (r)evolução pressupõe mudanças de mentalidades, como é o caso da Indústria 5.0, os países mais conservadores estarão preparados?

As necessidades provenientes da automatização e da informatização do chão de fábrica, para incrementar a competitividade dos produtos e dos serviços e potenciar os processos de internacionalização das empresas, têm sido sucumbidas a partir da promoção de diversas iniciativas, principalmente no âmbito dos apoios europeus. Em breve, estes incentivos contarão com uma ajuda adicional dos Planos de Recuperação e Resiliência (PRR), para consolidar a transformação digital, principalmente nas Pequenas e Médias Empresas (PMEs) que apresentam maiores dificuldades. Ao se atingirem patamares de uniformidade em torno dos pressupostos do paradigma atual, as economias encontrar-se-ão mais próximas de estabelecer pontes de transição tendo em vista a Indústria 5.0.

O que esperar na fase inicial do pós-pandemia?

O PPR português prevê a mobilização até 11 000 Milhões de euros em apoios, direitos e indiretos, para que todas as empresas tenham a possibilidade de integrar a órbita da:

– Inovação empresarial

– Digitalização das empresas

– Qualificação dos ativos

– Descarbonização da indústria

– Bioeconomia

Fundamentos da modernização industrial contemporânea

“Num modelo operacional digital, os humanos podem ter concebido os sistemas operacionais, mas os computadores estão, de facto, a fazer o trabalho em tempo real: pintar o Rembrandt digital, fixar um preço na Amazon, recomendar um produto na aplicação móvel do Walmart, qualificar um cliente para um empréstimo financeiro – todos os processos que tradicionalmente teriam exigido inteligência humana, não só para conceber, mas também para executar” (Iansiti & Lakhani, 2020, p. 8).  

Este dinamismo tem promovido e democratizado a transformação de chãos de fábrica em hubs tecnológicos de recolha de dados, por meio de diversos sensores e da ligação inteligente de máquinas, impulsionado a competitividade de produtos e de serviços, ao mesmo tempo que se potenciam os processos de internacionalização das empresas. Correspondem, por isso, a um conjunto de iniciativas e de estratégias que definem a modernização industrial contemporânea.

A interoperabilidade de diversas fontes de dados interdomínios pode ser assegurada por mecanismos de qualidade preditiva, baseados em tecnologias de ponta AI/ML.

A Quarta Revolução Industrial é um conceito que engloba diversas tecnologias para a automação e intercâmbio de dados. A eficiência e a produtividade dos processos podem ser alcançadas através da exploração, agregação, categorização e correlação de dados em informação, de forma automática e em tempo real, reunida sob plataformas agregadoras de modelos semânticos de vários tipos de ferramentas de análise (Gilchrist, 2016; Skilton & Hovsepian, 2018). Além de permitirem a tomada de decisões conscientes, estas ações partilham conhecimentos entre diferentes tecidos empresariais e, por isso, os riscos são mínimos. A transformação é transversal, mas setores como a indústria automóvel, tecnológica e biológica assumiram desde cedo a sua capacidade de inovação e liderança (Coelho, 2016). 

Significa que a informação gerada permite apoiar a decisão e a definição de novos rumos empresariais, até porque hoje os clientes exigem velocidade, transparência processual e um acompanhamento próximo dos projetos.

Como tal, a 4ª Revolução Industrial, também denominada de “transformação digital”, designa mais do que a digitalização de equipamentos, procedimentos, recolha de dados e sua disponibilização em rede IoT. Corresponde a uma transformação assente em quatro pilares: interconectividade, transparência da informação, decisões descentralizadas e assistência técnica (Hermann et al., 2016; Peças et al., 2020). Para esse fim, a velocidade dos acontecimentos, a abrangência e a profundidade de diferentes mutações simultâneas, bem como a transformação estrutural de sistemas, são aspetos críticos a considerar na transição digital das empresas (Schwab, 2017).  

No entanto, a utilização desta nova forma de gerar informação, para apoiar a decisão e a definição de novos rumos empresariais, alicerçou-se numa integração tímida e algo progressiva. Em certa medida promovida pela falsa conceção de que falar da I4.0 é falar de ferramentas complexas, caras e somente ao alcance de empresas multinacionais.

Para quando a transformação cultural do mercado de trabalho mais conservador?

As empresas começaram a ter consciência de que o conhecimento e a transparência são as principais e as mais valiosas vantagens competitivas de um mundo global, interligado, e em constante mudança. Esta perspetiva vai ao encontro da Indústria 5.0, mas também da visão introduzida por Takeuchi e Nonaka (2008), ao considerarem que as empresas sustentáveis são aquelas que, de forma holística e “viva”, criam novo conhecimento, disseminam-no pela organização e incorporam-no rapidamente em novas tecnologias e produtos. 

Inevitavelmente, esses aspetos implicarão modificações expressivas no seio do mercado de trabalho, fazendo-se acompanhar de mudanças estruturais. O contexto Pandémico de Covid-19 é um dos exemplos mais pertinentes, onde muitas mudanças foram implementadas como forma de adaptação às oportunidades do mercado, mas muitas outras redefinições espelham sobretudo estratégias de sobrevivência das empresas face à paralisação de cadeias produtivas, que ocorreu nos meses de março, abril e maio de 2020. Significa que nem todas as empresas se encontravam no mesmo patamar. Quando se aborda a dimensão organizacional, as discrepâncias podem ser gritantes. Este é, para já, um dos principais entraves, sendo que, por isso, se condiciona a promoção de uma discussão profícua em torno daquilo que poderá ser a Indústria 5.0 e a respetiva aplicabilidade em países como Portugal.

Importa ter em consideração que para se atingir um patamar de uniformidade da inovação empresarial também é necessário investir nos recursos humanos. No sentido em que o acelerado e contínuo processo de inovação somente se manterá futuramente se as empresas encontrarem pontes de equilíbrio com os seus colaboradores. É aqui que se insurge a Indústria 5.0, enquanto paradigma complementar da I4.0 em prol da cultura.

O conceito da Indústria 5.0 pressupõe que as empresas assumam mandatos de diferenciação, crescimento, expansão e internacionalização, mas, em vez de se focarem somente nas máquinas e respetivos modelos de negócio, as organizações devem recentrar os pressupostos da Indústria 4.0 e as evoluções tecnológicas em torno das pessoas, dos colaboradores e do seu trabalho, ao mesmo tempo que abordam os desafios inerentes à coexistência da eficiência, sustentabilidade e responsabilidade social

Ao falarmos do paradigma 5.0, invocam-se as indústrias de e para pessoas (…) a convergência de dois processos; melhor, duas realidades complementares abarcam processos disruptivos de transformação cultural em torno do ser humano, do ambiente e da sociedade.

O principal desafio da Indústria 5.0 é promover mudanças de mentalidades em culturas conservadoras.

A abordagem no ser humano e no alcance de objetivos sociais somente é possível por se estar a alcançar a rentabilidade e eficiência empresarial através dos pressupostos da I4.0. Apesar de a mudança de mentalidades ser um dos processos mais complexos, nas próximas décadas, os pilares da Indústria 5.0 concentrar-se-ão no estabelecimento de regras e protocolo em função dos fatores que apresentamos na imagem que se segue:

Notas finais

Atualmente, vivemos numa era global e localmente contextualizada, cujas desigualdades sociais, económicas, culturais e políticas permitem o desenvolvimento de novas fontes de disparidades, ao mesmo tempo que se relegam direitos conquistados em décadas anteriores para o patamar teórico (Costa, 2020, 2021). Conclui-se que, para se poder laboral tendo em conta os valores da Indústria 5.0, é necessário abordar e implementar todo um background pendente de questões sociais. Por isso, o principal desafio reside na promoção de mudanças de mentalidades em culturas conservadoras, onde se inclui Portugal.

Bruno Frutuoso Costa

Mestre em Jornalismo e Comunicação. É, no momento, investigador na Universidade de Coimbra e colaborador da Sinmetro.

Fontes de informação 

Chaves, P. (2021, 18 de junho). Indústria 5.0, o novo paradigma de transformação digital do setor de manufacturingPúblico. Disponível aqui;  Consultado em 9 julho 2021;

Coelho, P. M. N. (2016). Rumo à Indústria 4.0 (Dissertação de mestrado, Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra). Disponível aqui;

Costa, B. M. F. (2020). Dove e a Desconstrução de Estereótipos: Uma Relação de Simbiose. Interações: Sociedade E As Novas Modernidades, (39), 67-90;

Costa, B. M. F. (2021). Liberdade de expressão e discurso de ódio: Consequências para o campo jornalístico (Dissertação de mestrado, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra). No prelo. Disponível aqui;

Gilchrist, A. (2016). Industry 4.0: The Industrial Internet of Things. Apress. 

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