Pré-embalados, Qualidade Industrial

Pré-embalados com vidragem: saiba fazer o controlo legal

Os produtos pré-embalados congelados e ultracongelados com vidragem, são provavelmente o tipo de produtos cujo controlo em processo e controlo metrológico legal, é mais crítico. As metodologias implementadas para a determinação dos conteúdos efetivos, são bastante dependentes do operador que realiza os ensaios e isso pode traduzir-se numa fraca repetibilidade e confiança nos próprios métodos.

Neste artigo, vamos procurar esclarecer algumas questões relacionadas com controlo metrológico destes produtos, de forma a que consiga cumprir os requisitos mínimos aplicáveis.

O que são produtos pré-embalados com vidragem?

Os produtos pré-embalados com vidragem são todos aqueles que se encontram cobertos por uma camada de água (própria para consumo humano), aplicada por imersão ou pulverização, contendo ou não aditivos autorizados, com o objetivo de preservar a qualidade do próprio produto. É muito comum aplicar-se este processo a peixe congelado, crustáceos, molúsculos, bivalves, cefalópodes e por vezes também a carnes e alguns produtos hortícolas.

pré-embalados com vidragem

Neste tipo de produtos, é importante perceber, que a água de vidragem não deve ser contabilizada para o total do conteúdo efetivo do produto, ou seja, considerando um produto pré-embalado de pescada congelada, com um peso líquido declarado de 1 kg, isto significa que esse deve ser o peso apenas da pescada, excluindo a água de vidragem.

Como se realiza controlo em processo dos produtos com vidragem?

O processo de desvidragem, é um processo moroso e pouco prático para implementar no controlo diário dos produtos pré-embalados. Comparativamente com os métodos de controlo convencionais, como o controlo de produtos líquidos e sólidos, a implementação deste requer mais passos.

De um modo resumido, é necessário colocar o conteúdo de uma embalagem dentro de um recipiente com água, a uma determinada temperatura, e aguardar até que toda a película de vidragem tenha desaparecido sem que o produto descongele. O tempo de imersão poderá ser diferente consoante o tipo de produto a desvidrar e poderá levar entre 30 segundos a 1 minuto. É um método onde a sensibilidade do operador é muito importante, pois é esta que irá ditar quando é que o mesmo deve retirar o produto do recipiente.

Como este é um método demorado, muitos embaladores aplicam uma metodologia de controlo, que na verdade, poderá não ser muito robusta do ponto de vista do cumprimento dos requisitos legais. Esta metodologia processa-se da seguinte forma:

O embalador determina o teor médio de vidragem a algumas peças de produto. Depois de obter o teor médio de vidragem, por exemplo 10%, o embalador faz os cálculos para saber qual deve ser o peso bruto do produto considerando os 10% de vidragem e partir daí apenas procede à pesagem das embalagens finais e verifica se as mesmas contêm o peso bruto teórico.

O problema desta metodologia reside no facto da variabilidade da água de vidragem poder ser muito grande. Pegando no exemplo anterior, a média de 10% determinada pode ter resultado de valores mínimos de vidragem de 5% e de valores máximos de 15% e, se por acaso existir um produto, que até tenha o peso bruto teórico estabelecido, se este tiver 15% de vidragem, o seu conteúdo efetivo irá estar muito abaixo do permitido na lei.

Esta metodologia poderia ser melhorada se em vez de se utilizar o teor médio de vidragem fosse utilizado o teor máximo ou então o valor médio acrescido do desvio padrão, por forma a precaver eventuais produtos com uma maior proporção de vidragem, minimizando-se assim a probabilidade de obter produto não conforme. Como desvantagem, poderá acabar por se estar a embalar quantidade em excesso. No entanto, a alternativa será proceder à desvidragem sempre que se realiza o processo de amostragem e controlo aos produtos, determinando sempre os conteúdos efetivos, tal como se faz no controlo em processo dos produtos sólidos e líquidos.

Em Portugal, o enquadramento legal para produtos pré-embalados congelados e ultracongelados com vidragem, não é muito claro. De um modo geral, os embaladores costumam recorrer ao Decreto-lei n.º 37/2004 de 26 de fevereiro, que é bastante útil, pois refere a metodologia que deve ser usada no processo de desvidragem. No entanto, este é um diploma legal publicado pelo Ministério da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas e que não se encontra alinhado com os requisitos legais aplicáveis pela Portaria n.º 1198/91 de 18 de dezembro, publicada pelo Ministério da Indústria e Energia.

Enquanto o Decreto-lei n.º 37/2004 de 26 de fevereiro estabelece erros admissíveis por defeito de 5% e de 4%, conforme se tratem de cefalópodes ou outros produtos, respetivamente, a referida portaria, mantem o erros admissíveis por defeito (EAD), estabelecidos no Quadro n.º 1 da mesma, que são bastante menos permissivos. Além disso, o decreto-lei estabelece também diferentes planos de amostragem, mais reduzidos que os da portaria. Como as tolerâncias da portaria são bastante mais apertadas, é frequente encontrar-se produto que não cumpre os requisitos aí estabelecidos, por dificuldade de interpretação da legislação em vigor.

Conclusões

O importante no controlo metrológico de pré-embalados é assegurar que os produtos contêm as quantidades líquidas declaradas nos rótulos das embalagens. Uma vez que os pré-embalados com vidragem requerem uma metodologia mais complexa para a determinação do seu conteúdo efetivo, é aceitável que o controlo ao mesmo possa ser realizado através de estimativas e de métodos indiretos, contudo, os cálculos realizados devem prever os piores cenários, evitando utilização de teores médios de vidragem, pois neste caso não representam bem a realidade.

No que diz respeito à legislação e, uma vez que o controlo metrológico legal, é realizado pelos OVM, que têm como base a Portaria n.º 1198/91 de 18 de dezembro, recomenda-se que os embaladores tenham em conta os EAD aí estabelecidos, por forma a evitar eventuais sansões e coimas aplicáveis.

O processo de desvidragem nos pré-embalados congelados e ultracongelados não é fácil de implementar e implica alguns custos e conhecimentos por parte dos embaladores, daí que seja muito importante manterem-se devidamente informados e atualizados relativamente a estas questões.

Referências

Guia WELMEC 6.8, Edição de 2020, Drained Wright – Guide on the Verification of Drained Weight, Drained Washed Weight and Deglazed Weight, disponível em www.welmec.org.

Recomendação R87, Edição de 2016, Quantity of product in prepackages, Organização Internacional de Metrologia Legal, disponível em OIML R 87 Edition 2016.

Autor Rui Silva

Mestre em Eng.ª do Ambiente, Rui Manuel Pedrosa da Silva realiza e coordena, há 11 anos, ensaios de verificação metrológica de Pré-embalados. Desde 2012, participa como formador e orador em vários seminários e formações sobre Controlo Metrológico de Pré-embalados. Atualmente desempenha funções de Gestor da Qualidade e Diretor Técnico na empresa Aferymed

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